terça-feira, 4 de maio de 2010

Artista x Artesão

Trabalho em grupo realizado para a displica 'Arte e Estamparia', baseado no texto do Mário de Andrade 'O artista e o artesão'. foi feito um paralelo do que ele fala no texto com o que o Jum Nakao fez no desfile 'A costura do Invisível'.

Junho de 2004, São Paulo Fashion Week (SPFW)

O estilista e artista plástico Jum Nakao apresenta seu último desfile no evento. A despeito das expectativas de um desfile de moda, exibindo tendências de materiais, formas e cores, o trabalho apresentado consiste em roupas feitas inteiramente de papel, com formas que remetem a tempos passados e tudo branco. E para finalizar, ainda na passarela, toda a obra é rasgada pelas modelos na frente do público.
O desfile chamado “A Costura do Invisível” ganhou status de obra de arte, versão em livro e DVD, alçou os títulos de desfile da década pela SPFW e um dos mais importantes desfiles do século pelo Museu de Moda de Paris, onde, mais tarde, foi reproduzido.
Quase 1 tonelada de papel gasto na confecção das roupas e cenografia, uma equipe de 150 pessoas, 700 horas de trabalho empregadas nesse obra artesanal.
Então seria essa obra arte ou artesanato?
No texto de Mário de Andrade, “O artista e o artesão”, essa questão é discutida e pretendemos aqui fazer um paralelo entre os argumentos de Andrade e o desfile de Nakao.
“(...) todo artista tem de ser ao mesmo tempo artesão. (...) se perscrutarmos a existência de qualquer grande pintor, escultor, desenhista ou musico, encontramos sempre, por detrás do artista, o artesão.”
O trecho acima fala da necessidade da técnica e da prática no artefazer.
Mário de Andrade afirma haverem três manifestações na técnica de se fazer obras de arte. A primeira é o artesanato, o conhecimento do material com que se faz a obra de arte. Prático e necessário, é imprescindível a esta, e pode ser ensinado. A segunda é a virtuosidade, o conhecimento e a prática de técnicas históricas da arte, o domínio da técnica tradicional. Apesar de também poder ser ensinado, não é considerado imprescindível. E a terceira etapa é o talento, a solução pessoal do artista no fazer a obra de arte. Sendo o mais dramático dos três pontos, pois é imprescindível, mas não pode ser ensinado.
Podemos então dizer que “A costura do invisível” abraça os três preceitos acima descritos, começando pelo material escolhido, o papel. Foi estudado, pesquisado, testado até que se chegasse a um determinado tipo (vegetal) em gramaturas diferentes que pudesse ser submetido aos diversos processos e resistir e sustentar a obra final. Deveria ainda ser maleável o suficiente para se adequar às formas idealizadas e às necessidades das etapas de modelagem e montagem onde é preciso colar e descolar as partes sem que se rasgue ou prejudique a parte afetada pela cola. E ainda o aspecto visual: brilho, cor e transparência necessários aos efeitos desejados pelo criador.
Determinada a matéria, iniciam-se os processos de texturização, onde o papel é umedecido e prensado, dando relevo aos desenhos. Em seguida é cortado a laser ou a mão, de acordo com as necessidades definidas pela extensão e complexidade do desenho aplicado. A modelagem é feita parte sob uma perspectiva bidimensional e parte no corpo das modelos. E por fim a montagem da obra diretamente no corpo das modelos.
Finalmente o talento, que transforma um desfile de moda em passagem para um conto fantástico, através de roupas de papel com perfeita harmonia de formas e técnicas precisas de manipulação da matéria, e trazendo de volta à realidade quando são rasgadas. Causa impacto, reações, emoções. Faz pensar e refletir acerca do conceito, da idéia, da obra, da arte.
Podemos então concluir que Nakao e Andrade compartilham dos mesmos conceitos no que concerne à qualidade da obra de arte, e do artista consequentemente. “Artista que não seja bom artesão, não é que não possa ser artista: simplesmente não é artista bom.”
Papel: s.m. Folha ou lâmina delgada feita de substâncias de origem vegetal (celulose, trapos, palha de arroz etc.), na qual se escreve, imprime, embrulha etc. (Dicionário Aurélio)
Essa é a definição de papel, e o conceito desde os tempos mais remotos, mas Jum Nakao transformou a finalidade do papel. Não sendo utilizado apenas como uma superfície para desenhos e escrita, ele transformou em arte por conhecer o material e dominar as técnicas com que fez a sua obra.
Diante do trabalho percebemos que há um domínio e uma familiaridade com o material frágil que exige habilidade e delicadeza. Para cada pedaço da obra uma gramatura específica foi usada, sempre com cuidado rigoroso no manuseio, quase um processo cirúrgico, respeitando e adequando os limites da matéria à idéia do criador. Apesar (ou por causa) da fragilidade do suporte, impregnado de idéias e significados, ele traz vida, dá ânima à obra.
A escolha da matéria papel permite a consolidação dos objetivos desejados: efemeridade do material e a permanência da obra e de seu conceito ainda que esta seja destruída fisicamente, e a permissão desta idéia ser explorada ‘ao vivo’. Nakao diz: “As pessoas fazem as coisas como se aquilo não tivesse uma continuidade, e eu quis mostrar isso de uma forma poética, mesmo quando algo que é bem feito desaparece, ainda existe, porque foi bem feito.” Ao rasgar a roupa (a obra de arte) no final do desfile ele causa impacto, rompe com a expectativa, faz as sensações e descobertas tornarem-se perceptíveis. Entre as próprias modelos esse ato de rasgar acontece com dor, como uma perda. Era como se estivessem rasgando um vestido de princesa, que foi feito sobre e apenas para o corpo delas.
Mário de Andrade diz: “E si o espírito não tem limites na criação, a matéria o limita na criatura.” Mas parece que Nakao supera esses limites, não contra, mas junto com a própria matéria em si. Reforçando a idéia de Andrade de que a técnica pessoal é fruto da relação entre um espírito, o artista, e o material que ele move.
Desde o Renascimento, quando o individualismo se impõe na arte, a técnica pessoal se torna de fundamental importância. É conseqüência do espírito do tempo e cresce com a contemporaneidade. “Mas esta técnica pessoal é inensinável, porém; cada qual terá que procurar e achar a sua, pra poder se expressar com legitimidade.” Mário de Andrade diz que o artista precisa de uma solução única, pessoal para dar à obra de arte a sua verdade, e assim tornar-se um criador legítimo. E mesmo sendo uma expressão do indivíduo, não leva a desorientação ou ao caos, pois é “fruto de relação do espírito e do material”.
Na obra estudada podemos analisar as soluções subjetivas do artista para os problemas que sua obra deveria contemplar. Suas técnicas pessoais desenvolvidas e aprimoradas para transformar uma “rotina” (um desfile de moda sazonal) em evento memorável.
Se falássemos aleatoriamente sobre um desfile de moda feito em papel cujas roupas foram rasgadas em plena passarela ao final da apresentação, não teríamos a ínfima noção do que foi realizado. Precisamos explanar todas as etapas e técnicas, conhecer a disposição do artista em estudar a matéria e seu manuseio à exaustão, tratar dos aspectos quantitativos, para termos as reais dimensões do feito. Mas para atestar a legitimidade da obra temos que compreender e reconhecer a verdade e a técnica pessoal do artista, e então nos aproximarmos dos objetivos mais profundos da obra de arte.
No ensaio de Mário de Andrade é esclarecido que a noção de beleza sempre existiu, mas anteriormente ao Renascimento “a beleza era apenas um meio de encantação aplicado a uma obra que se destinava a fins utilitários muito distantes dela.” Somente mais tarde é que esse conceito se torna uma finalidade nas artes plásticas e não mais uma conseqüência. “A beleza se materializa, se torna objeto de pesquisa de caráter objetivo, ao mesmo tempo que o individualismo se acentua.”
A beleza do trabalho de Nakao é apresentada na excelência das matérias e técnicas empregadas, na inovação de recursos, no alcance do objetivo de transmitir seu conceito, sua mensagem, na quebra de expectativas. Não há busca de uma beleza ideal, ou ideal de beleza, que num desfile de moda pode-se dizer que é a exibição das tendências mais adaptáveis ao mercado, mas ao contrário, os conceitos estéticos mostrados reforçam seus valores subjetivos.
A mistura do moderno, representada pelas perucas “playmobil”, e do antigo, as próprias roupas, musica, iluminação, cenografia... a obra completa portanto, aponta para um valor de beleza individual, balizado por “exigências espirituais do individuo e sua finalidade.” Nakao usa a beleza como “isca” para seduzir o publico, atingir o encantamento total para então destrui-lo, junto com a obra, com a beleza tangível.

“O contraste entre as referências (a unidade da indumentária do século XIX e a reprodutividade do playmobil) criaria um instantâneo sem espessura: passado e futuro juntos evidenciando a transitoriedade das estéticas e linguagens e achatando inteiramente a perspectiva temporal. Um novo sentido se criaria rompendo as referencias temporais”.
“O artista e o artesão” aponta para a necessidade de uma limitação de conceitos por parte dos artistas contemporâneos, e da construção de uma atitude estética diante da arte e da vida. As próprias liberdades sobrepõem o equilíbrio entre o artista e a sociedade. O individualismo desenfreado afasta a importância do artesanato e da pesquisa, e leva à vaidade de ser artista tornando este, individuo, objeto de arte e não mais a obra de arte em si.
A obra abordada neste trabalho mostra o individualismo, as liberdades do criador exacerbadas no conceito e na obra em si. Mas há também “a vontade estética, uma humildade e segurança na pesquisa, um respeito a obra de arte em si, uma obediência ao artesanato”. Aqui não existe sobreposição de interesses e vaidades. Há sim uma coesão perfeita entre obra e artista, atitude estética e social.
Desde a concepção da idéia até sua “morte” pública, o desfile foi minuciosamente estudado, testado, pesquisado apaixonada e exaustivamente. Consciente das limitações, Jum Nakao as transpõe pelo conhecimento, pelo respeito, pela ousadia. Quebra regras e provoca questionamentos, não pelas vaidades e interesses pessoais, mas pela qualidade de uma obra perfeita, segura de seus conceitos. Transforma o que seria apenas mais um desfile de moda, efêmero, em obra de arte, permanente.

“Iniciamos o desfile normalmente – dentro dos códigos -, até quando as modelos se perfilaram para a última contemplação do espectador. Nesse momento subvertemos todas as ordens, alteramos as luzes, a trilha. Era o sinal para rasgar. Uma abertura para a reflexão sobre novos caminhos possíveis na cartografia do invisível”.
(NAKAO, Jum 2005)
BIBLIOGRAFIA

http://www.jumnakao.com.br/cstrdnvsvl.html
http://www.youtube.com/watch?v=JDaCsnXHaAI&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=t0AtPc0hRkQ&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=Dez8nhF1mj8&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=EUJDE8dbN3A&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=UdUcv1_omtk
http://www.youtube.com/watch?v=UwxYz-5Sth4
http://artemoda.uol.com.br/pagina.php?id=176
http://ibahia.globo.com/entrevistas/artigos/default.asp?modulo=1445&codigo=212729
ANDRADE, Mário de. O artista e o artesão. 1938.
NAKAO, Jum. A costura do invisível. São Paulo: Editora Senac, 2005.
STORK, Ricardo. 1996

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